[Texto] Assata: Uma Autobiografia – Capítulo 1

Este é o Capítulo 1 da autobiografia da Assata Shakur. Para baixar em .pdf, clique aqui.

Havia luzes e sirenes. Zayd estava morto. Minha mente sabia que Zayd estava morto. O ar era como vidro gelado. Bolhas gigantes se enchiam e explodiam. Cada uma parecia uma explosão no meu peito. Minha boca tinha gosto de sangue e sujeira. O carro girou em volta de mim e então algo como sono tomou conta de mim. Ao fundo eu[1] podia ouvir o que pareciam ser tiros. Mas eu estava adormecendo e sonhando.
De repente, a porta abriu e eu senti que estava sendo arrastada para o asfalto. Empurrada e socada, um pé em cima da minha cabeça, um chute no meu estômago. A polícia estava por todo o lado. Um policial estava com a arma apontada pra minha cabeça.
“Em que direção ele foi?” ele gritava. “Vadia, é melhor você abrir a porra da sua boca ou eu vou explodir a sua cabeça!”
Eu apontei minha cabeça pro outro lado da estrada. Eu tinha certeza que ninguém foi naquela direção. Alguns dos policiais saíram e foram correndo.
Um porco disse, “Vamos acabar com ela.” Mas os outros estavam ocupados com o carro, revistando. Eles estavam revirando e metendo a mão em todos os cantos.
“Você achou a arma?” eles ficavam perguntando um ao outro. Depois, um deles perguntou ao outro, “A gente põe ela no carro?”
“Não. Deixa ela aí na sarjeta que é o lugar dela. Só tira ela do caminho.”
Eu me senti sendo arrastada pelos pés no asfalto. Meu peito estava ardendo. Minha blusa estava roxa com sangue. Eu estava convencida de que meu braço foi arrancado com o tiro e estava pendurado dentro da minha camisa por algumas tiras de carne. Eu não conseguia senti-lo.
Finalmente, a ambulância chegou e eles me puseram dentro dela. Ser movida era uma agonia, mas os lençóis valiam a pena. Eu estava com muito frio. Os médicos me examinaram. Eu tentei falar, mas apenas bolhas saíram. Eu estava espumando pela boca.
“Onde ela foi baleada?” eles perguntaram uns aos outros como se eu não estivesse ali. Eles terminaram o exame. Eu fiquei aliviada.
“Vamos movê-la,” um deles disse.
“OK, mas espera um minuto,” disse o motorista e ele saiu. “Marca um dois,” eu ouvi ele dizer. “Nós precisamos esperar.” O motorista bateu a porta.
Ele disse algo mais, mas eu não entendi. O tempo passou. Eu estava viajando de novo. Era um sentimento estranho, como um sonho, um pesadelo. Mais tempo se passou. Parecia uma eternidade. Eu ia e vinha, ia e vinha.
Uma voz rouca perguntou, “Ela já morreu?” Eu viajei de novo. Eu escutei uma outra voz. “Ela já morreu?” Eu imaginava quanto tempo mais a ambulância ia ficar parada lá. Os atendentes pareciam nervosos. As bolhas no meu peito pareciam estar crescendo. Quando elas explodiam, todo o meu peito se estilhaçava. Eu adormeci de novo e sonhei estar no verão lá no Sul. Eu pensei na minha avó. Enfim a ambulância começou a se mover. “Se eu sobreviver,” eu lembro de pensar, “eu vou ter um braço só.”

O hospital é todo branco. Todo mundo que eu vejo é branco. Todo mundo parece estar esperando algo. De uma vez, todos começam a se mover. Pressão sanguínea, pulso, agulhas etc. Dois detetives entram. Eu sei que são detetives porque eles parecem detetives. Um deles parece um buldogue, com as bochechas penduradas nos lados da boca. Eles supervisionam as enfermeiras enquanto elas cortam as minhas roupas. Depois de um tempo, uma delas pega as minhas digitais com o que parece um cotonete. Depois eu descobri que aquilo é o teste de ativação por nêutron para determinar se eu disparei ou não uma arma de fogo. Outro então tenta tirar a minha digital, mas ele tem dificuldade porque a minha mão está morta.
“Me dá o kit de morto.” Ele põe meus dedos em umas coisas que parecem esponjas usadas para tirar digital de pessoas mortas. Eles começam a me fazer perguntas, mas um monte de médicos entram. Um deles, que parece ser o médico-chefe, me examina. Ele mete a mão e me cutuca, me jogando como se eu fosse uma boneca de pano. Depois, como se fosse me matar, ele me vira para que eu fique de bruços. A dor é como um choque elétrico. Eu gemo.
“Não chore agora, menina,” ele diz. “Por que você atirou no policial? Por que você atirou no policial?”
Eu quero chutá-lo na cara. Eu sei que ele me mataria se tivesse chance. Eu posso imaginar o bisturi escorregando. Um dos outros médicos diz algo sobre ligar para o quarto de operação. “De jeito algum!” é tudo o que eu consigo pensar. “De jeito algum!”
Depois de um tempo, todos eles saem. Depois, uma enfermeira Negra entra no quarto. Eu fico tão feliz quanto eu conseguia de vê-la. Ela se inclina sobre mim.
“Qual o seu nome?” ela pergunta. “Qual o seu nome?”
Eu penso sobre e decido não dizer nada. Se eu dizer-lhes o meu nome, eles vão saber quem eu sou e vão me matar com certeza.
“Qual o seu nome?” ela continua me perguntando, enunciando cada sílaba do jeito que as pessoas falam com pessoas com problema de audição ou entendimento. “Qual o seu nome?” Qual o seu endereço? Onde você mora?” A voz dela está ficando mais alta. “Nós precisamos da sua assinatura, senhora,” ela diz, balançando um pedaço de papel na minha frente. “Nós precisamos de permissão para o tratamento, caso precisemos operar.” Ela repete a mesma coisa, várias vezes. “Quem devemos contatar em caso de emergência?” (Eu acho isso meio engraçado.) “Qual o seu nome? “Onde você mora?” Eu fecho os meus olhos, desejando que ela vá embora. Ela continua falando.
Eu viajo, pensando no meu braço. Ele ainda está lá.
“Dano no nervo. Paralisado,” eu ouço eles dizerem. Nunca me ocorreu isso. Não é tão ruim, eu lembro de pensar. Eu posso viver com isso se eu for obrigada.
Mais vozes, outras vozes, irritando meus ouvidos e minha consciência.
“Ela pode falar,” um está dizendo. “O médico diz que ela pode falar. Onde você estava indo? Qual o seu nome? De onde você estava vindo? Quem estava no carro com você? Quantos eram? Eu sei que ela pode me ouvir.”
Eu continuo de olhos fechados. Um deles se inclina bem perto de mim. Eu sinto o seu bafo na minha bochecha. E o cheiro.
“Eu sei que você pode me ouvir e eu sei que você pode falar e se você não se apressar e começar a falar, eu vou amassar sua cara pra você.”
Meus olhos se abrem involuntariamente. Imediatamente, eles estão todos na minha cara, fazendo perguntas depois de perguntas. Eu não digo nada. Depois de um tempo, eu fecho os meus olhos novamente.
“Ah, ela não se sente bem,” um deles diz com uma voz fina, de brincadeira. “Onde dói? Aqui? Aqui? AQUI?”
Com cada aqui, vem uma pancada. Eu olho em volta desesperada, mas não tem ninguém. Mais dedadas e socos, mas nenhum deles dói mais do que o meu peito está doendo. Eu tento gritar, mas eu sei imediatamente que é um erro. Meu peito explode e eu sinto que vou morrer. Eles continuam. Perguntas e pancadas. Eu acho que não vão parar nunca.
Uma voz de mulher. “Telefone.”
“Obrigado,” um deles diz, mostrando-me os dentes feiamente. Eles se foram.
Outro porco entra. Um porco Negro. De uniforme. Ele se aproxima e eu vejo que ele não é um policial, mas um segurança do hospital. Ele fica não muito longe da onde eu estou deitada e eu posso sentir que ele não é nem um pouco hostil. Seu rosto se transforma num sorriso reservado e, bem discretamente, ele fecha seu punho e me dá um aceno de punho levantado. Aquele homem nunca irá saber quão melhor ele me fez sentir naquele momento.
Os detetives voltam com uma enfermeira. Eles começam a mover a cama. Minha mente acelera. Pra onde eles estão me levando? O único lugar que eu consigo imaginar é a sala de operação. Quando nós chegamos na sala de raio-X, eu fico agradecida. Como eu tenho que me mover, os raios-X são dolorosos, mas o técnico é legal. Os raios-X acabam e eu sou movida corredor abaixo, determinada a manter meus olhos fechados. De repente, flashes de luz. Meus olhos se abrem. Dessa vez eles estão tirando minha foto.
O fotógrafo da polícia pergunta, “Você não quer nos dar um sorriso? Vamos. Dê-nos um sorriso.”
Eu fecho meus olhos. Nós estamos movendo. A cama para. Um dos porcos diz à enfermeira que ele está com dor de cabeça. Ela se voluntaria pra pegar algo pra ele.
A cama está movendo de novo. Aonde diabos eles estão me levando? De novo a luz está mudando. Apesar de meus olhos estarem fechados, eu posso sentir a diferença. Parece que eu estou no escuro. Eu não posso aguentar mais e eu olho. O quarto está escuro, mas há alguma luz. Meus olhos se adaptam devagar. Há algo do meu lado. Eu posso ver um contorno. Algo num plástico. Alguma coisa – minha mente vagarosamente percebe que é um homem em um saco plástico. E aquele homem é Zayd. Meu corpo enrijece. Minha mente gira.
Um dos policiais diz, “Isso é o que vai acontecer com você antes da noite acabar se você não disser o que nós queremos saber.”
Eu não digo nada, mas por dentro eu estou cheia de ódio. “Cães! Suínos! Porcos imundos! Vermes sujos! Bastardos! Filhos da puta!” Minha raiva só aumenta. “Eu não lhe diria a hora certa do dia,” eu lembro de pensar. “Eu não lhe diria que merda fede!”
A noite se arrasta a dentro. Enfermeiras, médicos e policiais. Eu ainda estou com medo, mas estou com tanta raiva e maldade quanto estou com medo. Os detetives entram e saem. Quando ninguém está lá, exceto eles, eles começam sua interrogação e a me bater. Mas depois de um tempo, eu não penso muito neles. Eu estou pensando em sobreviver, em viver, no que vai acontecer em seguida. Eles vão fazer o que vão fazer e não tem muita coisa que eu possa fazer sobre. Eu só tenho que ser eu mesma, ser o mais forte que eu puder e fazer o meu melhor. Isso é tudo. Não há pra onde correr e eu não estou em condições de tentar. Eu percebo quão isolada e vulnerável eu estou. E se eu realmente precisar de uma operação? Eu preciso de ajuda do mundo externo. Eu preciso tentar falar com alguém. A enfermeira Negra tem ido e vindo, me perguntando as mesmas coisas. Todas as vezes eu fechei os meus olhos até ela ir embora. Eu decido pedir a ela que entre em contato com o meu pessoal na próxima vez que ela vier. Talvez ela seja legal. Ela é a minha melhor alternativa; o guarda foi embora faz tempo.
Eu durmo um pouco. Quando eu acordo, uma enfermeira e um padre estão de pé perto de mim. O padre está murmurando e parece estar passando algo na minha testa. Inicialmente, eu não entendo o que ele está fazendo. Depois cai a ficha. Últimos sacramentos. Últimos sacramentos é pra quem está morrendo.
“Vá embora,” eu digo gritando. Eu não tenho força pra dizer mais nada. Mas eu sei que eu não quero os últimos sacramentos de ninguém. Eu não vou morrer e mesmo que eu morra, eu não vou morrer como uma hipócrita.
A enfermeira Negra volta e começa as suas perguntas de novo. Antes que ela comece de fato, eu peço que ela se aproxime. Não há ninguém mais em volta. Eu peço que ela entre em contato com a minha advogada (que é também minha tia). Eu dou a ela o meu nome e peço que ela mesmo faça a ligação. Ela tem dificuldade para entender e fica pedindo pra eu repetir o meu nome. Eu mal consigo falar e cada vez que ela pede pra eu me repetir, eu sinto que estou gritando. E então me dou conta que Assata provavelmente é outra língua pra ela. Ela provavelmente nunca ouviu esse nome antes. Então eu lhe dou o meu nome de escrava. Depois eu dou a ela o número e ela sai correndo.
Dois minutos depois os detetives estão em cima de mim como gato atrás de rato. Eles me ameaçam e perguntam, tentam me convencer e me oferecem o mundo, Eles jogam perguntas em cima de perguntas pra mim, agindo mais loucos do que antes. Um age como o policial bom que tenta me salvar do policial mal, se eu colaborar. Estou cansada e a cena deles me deixa mais cansada ainda. Eu posso ver a exaustão no rosto deles. A noite está caindo sobre mim. Suas vozes começam a ficar longe. Eu não consigo aguentar mais. Eles podem ir para o inferno. Eu vou dormir. Dessa vez eu vou de vez.
Quando eu acordo, a cama está movendo. Depois de pouco tempo, chegamos na parte de tratamento intensivo do hospital. O lugar está cheio de enfermeiras. Eu estou feliz. Tudo que eu quero fazer é dormir. Logo eu estou dormindo de novo.
Eu acordo e é o dia seguinte. Os médicos estão fazendo turnos. Um deles, um estagiário eu acho, é bastante gentil comigo. Eles me examinam e passam o resto da manhã fazendo exames de sangue, raios-X, eletrocardiograma, etc etc.
Logo eu fico sabendo que vão me transferir de novo. Eu também fico sabendo que estou no hospital do município de middlesex[2]. Eu escuto as enfermeiras falando. Elas estão felizes que eu vou ser transferida porque a polícia está deixando-as loucas.
Quando eles veem para me transferir, parece um desfile da polícia. Os quartos pra onde estou sendo transferida se chamam Suítes Johnson. Eu não consigo acreditar. Eu nunca imaginei que os hospitais possuíam quartos assim. Há uma sala de espera, um quarto gigante com equipamentos de hospital (onde me mantêm), um outro quarto, uma cozinha, um banheiro completo e outro pequeno quarto cujo propósito eu nunca vou saber. Eles me transferem para a cama e algemam a minha perna à grade.
Eu continuo olhando em volta. É elegante e certamente para pessoas ricas. Eu provavelmente sou a primeira pessoa Negra a estar nesse quarto. E a única razão para estar lá é por segurança. Eles trancaram as portas e ninguém pode entrar, exceto pela porta da sala de espera onde há três policiais parados. Dois normais e um sargento.
O rádio da polícia não para o dia todo. “Um carro cheio de pessoas de cor parecendo suspeitas em um Ford branco de duas portas.” “Um Negro suspeito andando perto do hospital usando jaqueta azul e tênis.” Nenhum suspeito branco foi reportado. Ouvindo as conversas dos policiais pela porta e no rádio, eu percebi que o hospital está abarrotado de policiais estaduais. Eles parecem achar que alguém vai tentar me libertar. O Demerol me faz viajar um pouco e facilita pra eu ficar na posição torta que sou forçada a ficar por causa da algema na minha perna.
Mais tarde naquela tarde, começa de novo. Detetives e mais detetives. Perguntas e mais perguntas. Desta vez, as perguntas são diferentes. Agora eles querem saber sobre o Exército pela Libertação do Povo Negro[3]: qual o tamanho; em quais cidades existe; quem está nele etc, etc. Mas o foco principal das questões gira em torno do “cara que fugiu.”
Eles estão mais cuidadosos sobre onde e como eles me batem. Eu acho que não querem deixar nenhuma marca. Um enfia seus dedos nos meus olhos. Eu não sei o que ele tem na ponta dos dedos, mas seja lá o que for, arde como o inferno. Eu penso que vou ficar cega pra sempre. Eu fecho os meus olhos e aperto eles o máximo que consigo. Ele me acerta de novo mais algumas vezes. Um pouco daquilo entra nos meus olhos mesmo assim. Lágrimas ardentes caem pelo meu rosto e minha cabeça inteira está latejando. Eu penso que ele vai continuar, mas ele começa a me xingar, me chamando de todo o tipo de crioula[4] vadia. Finalmente, ele e os outros vão embora.
Em um daqueles primeiros dias, um médico branco vem me examinar. Ele age muito gentilmente, doce como uma torta. Ele me examina devagar, o tempo todo jogando conversa fora. Eu imagino que tipo de especialista ele é já que eu não o tinha visto antes e eu sei que ele não é um dos que vem sempre. Ele diz que sabe quão terrível eu devo me sentir e faz questão de reclamar sobre eu estar algemada à cama. Ele continua falando e, depois de um tempo, puxa uma cadeira pra perto da cama. Então ele começa a fazer pequenas perguntas. A conversa segue tipo assim:
“Aqueles caras na rodovia são duros. Eles vão te multar por qualquer coisa. Eu pego a rodovia todo dia. Você mora em jerséi? Eu moro em Newark. Você já esteve lá? Você deve se sentir bastante sozinha aqui. Eu aposto que você precisa de alguém para conversar. Eu fiz medicina em Nova Iorque. Você é de lá, né?”
Eu acho suspeito e não digo nada. Eu digo a ele que quero dormir e ele vai embora. Eu nunca mais o vi, mas até hoje eu estou convencida de que ele era algum tipo de policial ou agente do FBI[5].
No terceiro ou quarto dia, a maioria dos meus problemas acabaram. Bem, não exatamente, mas a parte dos socos, beliscões, cutucões e dedadas dos meus problemas sim. Uma enfermeira com um sotaque alemão veio me ajudar. Ela era uma das enfermeiras da manhã, muito profissional e correta, ao ponto de ser um pé no saco. Mas ela foi uma salva-vidas. Foi ela quem primeiro reclamou sobre quão apertadas as algemas estavam na minha perna. Minha perna começou a inchar e ela insistiu pra que eles afrouxassem e que ela fosse coberta com gaze. Claro que assim que ela ia embora, eles apertavam de novo, mas a gaze ajudava um pouco. Eu podia dizer que pelas pequenas coisas que ela dizia e fazia, que ela sabia o que estava acontecendo. Uma manhã ela chegou como de costume, alcançou atrás da cama e puxou alguma coisa e então me entregou um botão eletrônico em uma corda.
“Qualquer hora que você precisar de mim ou qualquer coisa das enfermeiras, basta apertar esse botão,” ela disse. “Não fique com medo de usar,” ela continuou, me dando um olhar de quem sabe o que está acontecendo.
Eu poderia tê-la beijado. Mais tarde, quando ela retornou ao quarto, depois dos policiais perceberem que eu estava com o botão, um chegou por trás dela.
“Tem alguma forma de desconectar isso?” ele perguntou. “Ela pode machucar alguém com isso ou machucar ela mesma.”
“Não,” ela disse, “não tem como remover. Se você puxar fora, vai ficar apitando na estação das enfermeiras. Ela está tendo dificuldades pra respirar e precisa disso.”
“Certamente!” eu pensei. “Das ist richtig[6].”
Depois disso, sempre que a polícia chegava a dois pés da minha cama, eu apertava o botão. Finalmente, eles desistiram da ideia de me espancar e se contentaram com ameaças e outros tipos de assédios. Um favorito deles era ficar em pé na porta e apontar suas armas pra mim. Cada dia era meu último dia na terra. Cada noite era minha última noite. Depois de um tempo, eu me acostumei. Fiquei imune. Às vezes eles sacam uma arma que eu não sabia que estava vazia, davam um grande e apaixonada discurso e então puxavam o gatilho. Outras vezes eu era convidada a um jogo de roleta russa. Eles todos expressavam um ódio amargo por mim. Eles eram policiais estaduais e eu era acusada de ter matado um deles.
Todo dia havia três turnos policiais. Quando eles mudavam de turno, os dois policiais saudavam o sargento. Alguns saudavam com uma saudação do exército, mas outros saudavam como os nazistas faziam na Alemanha. Eles botavam as mãos na frente deles e batiam seus tornozelos. Eu não conseguia acreditar. Um dia um deles entrou e me deu um sermão sobre ele ter lutado na II Guerra Mundial no lado errado. Ele falou e falou e não havia dúvidas de que ele acreditava no que estava falando. Ele falou sobre quão ferrado o mundo está. Como pessoas de bem não podiam andar nas ruas. Ele disse que se Hitler tivesse ganhado, o mundo não estaria na lama que está hoje, que crioulos como eu, crioulos ruins, não estariam por aí atirando em policiais estaduais de nova jérsei.
Ele continuou falando que a raça branca tinha inventado tudo porque eles eram inteligentes e trabalhavam duro, que as outras raças queriam se revoltar e usar o terrorismo para tomar tudo que a raça branca tinha trabalhado tanto para conseguir. Eu tive dificuldades para manter minha boca fechada. Ele falou sobre impérios, o Romano, o Grego, o Espanhol, o Inglês. Ele falou que os brancos criaram impérios porque eles eram mais civilizados que o resto do mundo. Que os brancos criaram o balé e a ópera e a sinfonia. “Você já ouviu falar de um crioulo que tenha escrito uma sinfonia?” ele perguntou. Todo dia ele me dava um sermão sobre nazismo. Algumas vezes outros nazistas se juntavam. Eu perguntei a ele se havia muitos nazistas entre os policiais estaduais, mas ele só riu e continuou falando.
Quando eu estava no Partido dos Panteras Negras[7], nós costumávamos chamar os policiais de “porcos fascistas,” mas eu os chamava de fascistas não porque eu acreditava que eles eram fascistas, mas por causa do jeito que eles atuavam em nossas comunidades. Mesmo me referindo tantas vezes aos policiais como fascistas, esses me chocaram pela verdade da minha própria retórica. Eu depois fiquei sabendo que a polícia estadual de nova jersei foi iniciada por uma alemão, que seus uniformes eram padronizados inspirados em um uniforme alemão (bastante similar aos uniformes que a polícia da África do Sul usa), que eles são conhecidos por parar Negros, Hispânicos e pessoas de cabelo comprido na rodovia e espancá-los, assediá-los e prendê-los.
Os nazistas lideraram a campanha de assédio contra mim. Eles cuspiam na minha comida e diminuíam a temperatura do quarto até estar congelante. Por um tempo a campanha girou em torno de me impedir de dormir. Eles batiam os pés no chão, cantavam músicas a noite toda, brincavam com suas armas, gritavam etc. Eu disse às enfermeiras sobre isso, mas foi em vão.
Eu conseguia lidar com qualquer coisa que eles inventavam, mas até quando isso iria continuar? Eu não ouvi nada vindo do lado de fora e eu nem sabia se alguém sabia onde eu estava ou ainda se eu estava viva ou morta. Meu peito estava melhor, mas eu ainda respirava com dificuldade. Eu pensei que havia passado do ponto de precisar operar, mas eu não tinha certeza se era por causa dos analgésicos que eles me deram ou porque eu realmente estava melhorando.
Todo dia eu pedia a eles para que contatassem minha advogada e todo dia eles diziam que tentavam, mas não obtinham resposta. Eu sabia que era mentira porque Evelyn tinha um serviço de secretária eletrônica. Todo dia eu pedia que contatassem minha família. A resposta a isso era geralmente obscena.
“Ah, você tem uma família, tem? A sua mãe é uma vadia crioula como você? Nós não permitimos nenhuma crioulinha nesse hospital.”
Eles falavam e falavam sobre a minha família até que acharam outra coisa para falar sobre. Quem disse que nenhuma notícia é boa notícia devia estar louco.
Bem, e chegaram notícias, mas não eram boas. Eles me falaram que prenderam Sundiata. Inicialmente, eu não acreditei, mas eles estavam muito desinibidos e arrogantes. Eu sabia que algo havia acontecido.
“Nós pegamos seu amigo,” eles disseram, “e ele está cantando feito um passarinho. É, ele está cantando feito um passarinho e ele está jogando tudo pra cima de você. É uma boa coisa para você que ele não sabia a cor da sua calcinha ou ele teria nos contado. Nós sabemos de onde vocês estavam vindo. Nós sabemos para onde vocês estavam indo. Nós sabemos que vocês pararam no Howard Johnson. Ele até nos contou o que vocês pediram e que você adora chips de batata.”
“O quê?” eu pensei. “Como eles sabiam isso?” Então eu lembrei que nós havíamos comprado chips de batata no Howard Johnson na rodovia. Talvez alguém tenha me visto e se lembrado de mim.
“Sim, Clark Squire nos disse que você pegou a arma do policial e atirou na cabeça dele. Agora você não faria algo do tipo, né? Bem, JoAnne, você está numa situação complicada. Se eu fosse você, eu não deixaria ele escapar com isso. É algo muito baixo jogar toda a culpa em cima de uma mulher. Eu vou fazer um acordo com você. Você nos diz tudo o que aconteceu e eu prometo que pegaremos leve com você. Eu só não gosto de ver você passando por tempos difíceis. Sabe, você deve passar um longo tempo na prisão, do jeito que as coisas estão, se ele testemunhar contra você. Você pode pegar prisão perpétua ou até a cadeira elétrica, mas tudo o que você precisa fazer é nos contar o que aconteceu e nós vamos ver de você cumprir apenas dois anos e ir pra casa. Você é jovem. Você não quer apodrecer na prisão, quer? Talvez você sinta que você deva algo à causa agora? Não, ele está contando tudo, tentando por tudo em cima de você. Eles são todos iguais. Eles falam toda essa merda sobre as pessoas Negras, direitos iguais, direitos civis, mas quando chega a hora, só se importam com o seu lado. Ele está pensando no lado dele e é melhor você pensar no seu. Você acha que a causa liga pra você? Seu próprio povo não quer nem saber de você. Para eles, você é apenas uma criminosa normal. Agora eu estou lhe dando essa chance única de se salvar e se livrar. Se você não aproveitar, você é uma idiota.”
Eles realmente achavam que as pessoas Negras eram idiotas. Suas frases eram as mais velhas dos livros. Ele estava sentado lá como se tivesse certeza que aquele discursinho brega tinha conseguido algo. Eu não disse nada. Se você não diz nada para eles, eles não têm nada para jogar contra você. “Dividir e conquistar” sempre foi o lema deles.
Quando eles perceberam que eu não ia falar, começaram a sair. Depois um voltou. “Ah,” ele disse, “Eu quase esqueci de ler os seus direitos.” Ele puxou um pequeno cartão e leu. “’Você tem o direito de permanecer em silêncio…Você tem o direito de…etc.’ Eu não queria que você dissesse que nós não lemos os seus direitos para você.”

Quinta-feira de manhã. Eles estão permitindo que eu faça ligações telefônicas. Eu não acredito. Eu ligo para a minha tia. Ela não está. Cai na secretária eletrônica. Eu não sei para quem mais ligar. Os únicos advogados os quais eu sei o nome atuaram no caso do julgamento dos 21 Panteras. Eu ligo para eles aleatoriamente. Ninguém está, mas as secretárias prometem dar a eles o recado. Estou desapontada, mas eu me sinto bem melhor. As coisas estão melhorando.
É sexta-feira. Pela atividade no quarto ao lado, eu posso dizer que tem algo acontecendo. Vozes e cochichos. Eles estão indo e voltando, entrando e saindo, arrumando isso, movendo aquilo. O rádio da polícia está a toda. O que está acontecendo? O que quer que seja, não pode ser tão ruim, eu acho. Eles estão me deixando em paz. Em pouco tempo, uma policial entra. Ela está em um uniforme marrom e sua insígnia diz “Departamento de Xerife.” Ele é Negra ou Hispânica. Eu não consigo distinguir, só sei que ela não é branca. Depois mais polícia entra, vestidos em uniformes similares ao dela. Em seguida, mais polícia. Eles são policiais estaduais. Um deles vai até a porta e fica parado em alerta. Depois alguns homens de terno entram. Depois um homem entra com um estenógrafo.
“O Honorável Joseph F. Bradshaw, Estado de Nova Jérsei, Município de Middlesex. Todos de pé.”
Então esse juiz entra vestido com uma bata preta. Um dos homens de terno lê as acusações contra mim:

Nós estamos aqui hoje para atender às queixas contra você no que se refere ao tiroteio de 2 de maio de 1973. Eu vou ler para você as queixas, deixar cópias com você das acusações que estarão pendentes. O Juiz irá então lhe notificar sobre os arranjos de tais direitos que você possa ter…
…você está sob acusação da Queixa Número 119977, pelo Detetive Taranto, Polícia Estadual de Nova Jérsei, que diz que em 2 de maio, 1973, dentro dos limites de Township of East Brunswick, Município de Middlesex, que você ilegalmente e contra a lei resistiu à prisão sendo feita pelo Policial Estadual de Nova Jérsei James Harper, descarregando uma pistola perigosa e ferindo o dito James Harper e fugindo da cena do incidente, tudo violando a N.J.S.2A:85-1…
Você também é acusada, …sob a Queixa S 119979, pelo Detetive Taranto, Polícia Estadual de Nova Jérsei, que diz que em 2 de maio, 1973, dentro dos limites de Township of East Brunswick, Município de Middlesex, que você cometeu uma Agressão Brutal e Fuga contra o Policial Estadual de Nova Jérsei James Harper atirando, ferindo e mutilando o dito James Harper com uma arma então descarregada pela réu, tudo violando a N.J.S. 2A:90-1.
Na Segunda Acusação, você é acusada pelo dito policial que diz que a ré Joanne Deborah Chesimard realizou na data e lugar mencionados contra a lei e ilegalmente uma agressão contra o dito James Herper com intenção de matar e assassiná-lo com o uso de uma arma então empunhada pela ré, tudo em violação da N.J.S. 2A:90-2.
Adicionalmanete, na Terceira Acusação, a ré é acusada de no lugar e data mencionados cometer contra a lei e ilegalmente uma agressão e fuga contra um oficial da lei, sem defesa, James Harper, devidamente declarado Policial Estadual de Nova Jérsei, de descarregar uma arma de fogo e ferir o dito James Harper, tudo em violação a N.J.S. 2A:90-4…
Em S 119980, você é acusada de ilegalmente e contra a lei cometer o crime de homicídio por livre e espontânea vontade e pensado previamente tiroteio, matar e assassinar o Policial Estadual Werner Foerster, tudo em violação da N.J.S. 2A:113-1 e N.J.S. 2A:85-14…
Você também está sendo acusada sob a S 119981 de uma acusação onde o Detetive Sargento Taranto a acusa de em 2 de maio, 1973, dentro dos limites de Township of East Brunswick, Município de Middlesex, que você contra a lei e ilegalmente com maldade previamente pensada causou ou efetivou a morte de James Coston, conhecido como Zayd Shakur, enquanto resistia à prisão ou evitava a prisão legal que estava sendo realizada no local pelo Policial Estadual de Nova Jérsei James Harper, tudo em violação da N.J.S. 2A:113-2…
Você também está sendo acusada sob a S 119982 pelo Policial Estadual Sargento Louis Taranto de em 2 de maio, 1973, dentro dos limites de Township of East Brunswick, Município de Middlesex, que você contra a lei e ilegalmente possui sob sua custódia e controle uma arma ilegal, a saber, uma pistola automática Browning 9 milímetros, uma Browning automática, calibre .380, uma pistola automática Llama, calibre .38, número de série 24831, todas sem obter nenhuma das permissões necessárias para porte das mesmas, em violação à N.J.S. 2A:151-41 (a)…
Você também está sendo acusada na Queixa S 119983, onde o Detetive Sargento Taranto diz que em 2 de maio, 1973, dentro dos limites de Township of East Brunswick, Município de Middlesex, que você contra a lei e ilegalmente forçosamente tomou da pessoa do Policial Estadual Wener Foerster um revólver calibre .38 com violência, a saber, atirando, mutilando e matando o mesmo Wener Foerster, tudo em violação à N.J.S. 2A:141-1.
A Segunda Acusação da Queixa a acusa de cometer este ato estando armada, em violação à N.J.S. 2A:151-5…
…você está sendo acusada pelo Policial Estadual Detetive Sargento Taranto, Queixa S 119984, que diz que em 2 de maio, 1973, em Township of East Brunswick, Município de Middlesex, você contra a lei, ilegalmente conspirou junto a James Coston, conhecido como Zayd Shakur, e um John Doe de cometer o crime de assassinato do dito Policial Wener Foerster, e na efetivação de tal conspiração, realmente executou os seguintes atos:

  1. Que a dita ré Joanne Deborah Chesimard realmente tinha em sua posse uma pistola com a qual efetuou a conspiração na hora mencionada e…no local mencionado acima.

  2. A mencionada acima Joanne Deborag Chesimard de comum acordo com e de acordo com o planejado agrediu o Policial James harper e ao contrário descarregou sua arma no dito Policial James Harper com a intenção de efetivar a conspiração ferindo, mutilando e matando-o, tudo em violação à N.J.S. 2A:98-1 e N.J.S. 2A:113-1

Eu acho que ele não vai parar nunca. Metade das acusações eu nem entendo. Eu interrompo o procedimento. “Eu não tenho um advogado aqui,” eu protesto. “Eu gostaria de ter um advogado presente.” Eles me ignoram e continuam lendo.
“Como você se declara?” ele me pergunta.
“Eu gostaria de ter um advogado presente. Eu não tenho direito a ter um advogado?”
“Isso não será necessário,” o juiz diz friamente. “Põe aí uma declaração de inocência para a ré.”
E tão rapidamente quanto quando entrou, a procissão vai embora.
Mais tarde, a mesma policial volta. Ela fica em pé rígida contra a parede. Seu rosto é uma máscara. “Ah, não!” eu penso. “Tribunal de novo? O que eles vão fazer, me julgar aqui e agora?” Eu me imagino sendo julgada ali na cama sem advogado.
A porta se abre. É Evelyn – minha tia e advogada. Ela é a vista mais linda do mundo. Ela me abraça e senta perto de mim. Como de costume, ela vai aos negócios antes.
“Eu só tenho cinco minutos,” ela diz. “Eles me falaram que eu não podia lhe ver. Eu tive que ir ao tribunal e conseguir uma ordem judicial para ver você. O juiz só nos deu cinco minutos cada. Sua mãe e irmã estão lá fora. Então fala rápido.”
Nós olhamos pra cima. O policial está praticamente em pé no nosso nariz.
“Eu gostaria de falar com a minha cliente em particular,” Evelyn diz. “Você pode ir pra trás, por favor. Isso é um ultraje. Isso é uma visita advogado-cliente e nós temos o direito constitucional à privacidade.”
O policial se afasta 2 centímetros. Eu digo pra Evelyn sobre o tribunal de mentira da manhã. Minha boca se move tão rápido que parece tipo um daqueles filmes antigos, mas com som. Eu posso ver pela sua expressão que eu devo estar parecendo horrível.
“Como eles estão lhe tratando? ela pergunta.
Eu não tenho tempo de contar a ela toda a história, mas eu tenho que contar o que está acontecendo. Eu não sei o que farão em seguida. Eu tenho que tentar com que alguém faça pressão para que eles parem. Eu digo a ela algumas coisas, mas eu não posso contar as piores coisas. Pelo seu rosto, ela parece estar com tanta pena e todo vez que eu digo alguma coisa, sua mão treme.
“Tenta fazer o que você conseguir,” eu digo.
“O tempo acabou. Tempo acabou, senhora!”
Evelyn faz seu protesto em vão. “Eu preciso de mais tempo com a minha cliente. Isso não é tempo o suficiente.”
“Desculpe, senhora. O tempo acabou!” Eles vão pra cima dela como se fossem a espancar.
Então ela se vai. Eu me preparo para a minha mãe e a minha irmã. Faz tanto tempo que eu não as vejo. Eu não sei o que esperar.
Minha mãe entra. Ela parece preocupada, mas firme. Ela me beija.
“Eu estou orgulhosa de você,” ela diz.
As palavras me envolvem, formando um lençol morno de amor. Eu estou tão feliz. Eu mal posso me conter. Minha mãe está orgulhosa de mim. Ela me ama e está orgulhosa de mim.
Muito cedo, o tempo com a minha mãe acaba. Minha irmã entra. Ela está com o seu cabelo envolto em um turbante e ela parece pálida. Assim que ela me vê, ela cai aos prantos. Lágrimas escorrem pelo seu rosto já inchado. Eu posso dizer que ela tem chorado bastante.
“Eu te amo,” ela diz.
Nós não falamos muito, mas eu me sinto tão próxima a ela durante esses poucos minutos.
“O tempo acabou.” De novo. E então ela se vai.
Eu fico lá toda emocionada. Tudo isso é tão difícil para a minha família. Eles parecem vulneráveis e tremendo. Isso talvez seja mais difícil para eles do que pra mim. Eu gostaria que houvesse algo pra eu fazer para fazê-los feliz.

Duas enfermeiras Negras eram muito gentis comigo. Quando elas estavam trabalhando, elas saiam do seu caminho para ter certeza que eu estava bem. Elas faziam visitar frequentes ao meu quarto, pelas quais eu fiquei especialmente grata durante aqueles primeiros dias.
“Se você precisar de alguma coisa, só apertar,” elas falaram sabendo o que acontecia.
Em uma das noites, uma das enfermeiras entrou e me trouxe três livros. Eu nem tinha pensado em ler. Os livros foram enviados por deus. Eles foram cuidadosamente selecionados. Um dos livros era Poesia Negra, outro era um livro chamado Mulher Negra na Amérika[8] Branca e o terceiro era um romance, Siddhartha, de Hermann Hesse. Sempre que eu me cansava do abuso verbal dos meus sequestradores, eu os cansava lendo poesia em voz alta. “Invictus” e If We Must Die” eram os poemas que eu normalmente lia. Eu os lia seguidamente, até que os guardas tivessem ouvido cada palavra. Os poemas eram minha mensagem a eles.
Quando eu li o livro sobre mulheres Negras, eu senti os espíritos daquelas irmãs me alimentarem, me tornando mais forte. Mulheres Negras têm lutado e ajudado umas às outras a sobreviver aos sopros da vida desde o começo dos tempos. E quando eu li Siddhartha, uma paz veio sobre mim. EU me senti em unidade com todas as coisas vivas. O mundo, apesar da opressão, é um lugar lindo. Eu dizia “Om” suavemente pra mim mesma, deixando meus lábios vibrarem. EU senti os pássaros, o sol e as árvores. Eu estava em comunhão com todas as forças revolucionárias da terra.
Eu estava definitivamente melhorando. Eles estavam até me desacorrentando para que eu pudesse ir ao banheiro uma vez ou outro, com a ajuda de uma enfermeira. Eu ainda estava fraca e quando eu voltava do banheiro, eu caia na cama como se eu tivesse completado um grande exercício físico. Mas pelo menos agora eu sabia o que estava errado comigo. Durante aqueles primeiros dias, eu mal podia perguntar e quando perguntava, eles fingiam que a minha condição era um segredo ultra secreto ao qual eu não tinha cesso. Havia uma bala no meu peito (ainda está aqui); um pulmão machucado com líquido dentro, uma clavícula quebrada e um braço paralisado com dano indeterminado nos nervos. Eu continuei perguntando se eu poderia usar minha mão novamente. Um ou dois médicos disseram, sem rodeios, não. Os outros disseram, “Talvez sim, talvez não.”
De qualquer jeito, eu ia viver.

HISTÓRIA

Você morreu.
Eu chorei.
E continuei a me levantar.
Um pouco mais devagar.
E muito mais mortífera.

[1] Do original i. O termo eu na língua inglesa é sempre escrito em letra maiúscula. Assata utiliza o termo em letra minúscula como forma de demonstrar a importância do coletivo em vez da individualidade.

[2] Assata Shakur utiliza a escrita de palavras que deveriam ser com letra maiúscula em minúscula, demonstrando, assim, a menor importância que elas têm para ela. Procuramos respeitar essa diferenciação em todo o texto.

[3] Do original Black Liberation Army.

[4] Do original nigger. Este termo era utilizado na época da escravidão pelos senhores de engenho para se referirem aos escravos Negros. Atualmente, na língua inglesa, esta palavra possui um tom pejorativo.

[5] Federal Bureau of Investigation ou Agência Federal de Investigação.

[6] Em alemão no original.

[7] Do original Black Panther Party.

[8] Do original Amerika. Na língua inglesa, muitas vezes os Estados Unidos da América é referenciado apenas como América. Assata utiliza a grafia de algumas palavras com a letra k, fazendo referência à Ku Klux Khan (KKK), organização supremacista branca dos Estados Unidos.

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