Assata Shakur: A terrorista pro governo é nossa heroína pra comunidade

Assata Shakur: A terrorista pro governo é nossa heroína pra comunidade (original)

Por Mos Def (conhecido desde 2011 por Yasiin Bey), em 2005

No começo de maio, o governo federal lançou um comunicado no qual rotulava JoAnne Chesimard, conhecida pela maior parte da comunidade Negra como Assata Shakur, como uma terrorista doméstica. Ao fazer isso, eles também aumentaram a recompensa pela sua cabeça de $150.000 para $1.000.000, valor sem precedentes.

Do ponto de vista da polícia, Shakur é uma assassina fugida de policiais. Do ponto de vista de muitas pessoas Negras, incluindo a mim, ela é uma mulher erroneamente condenada e uma heroína de proporções épicas.

Minha primeira memória de Assata Shakur foi os pôsteres de “Procurada” por toda a vizinhança do Brooklyn. Eles diziam que seu nome era JoAnne Chesimard, que ela era uma assassina, uma condenada fugida, armada e perigosa.

Eles a fizeram parecer como uma supervilã, como algo saído de uma história em quadrinhos. Porém mesmo naquela época, quando criança, eu não conseguia acreditar no que estavam me contando.

Quando eu olhava para esses pôsteres e para a fotografia de uma mulher franzina, escura, com ossos da bochecha saltando, com um cabelo afro, eu via alguém que parecia ser da minha família, uma tia, uma mãe.

Ela parecia que tinha uma alma. Mais tarde, no ensino fundamental, quando li sua autobiografia, “Assata”, eu descobriria que não só ela tinha uma alma, como tinha um coração imensurável, coragem e amor.

E eu viria a acreditar que aquele mesmo coração e alma que ela possuía era exatamente o motivo que Assata Shakur foi baleada, presa, incriminada e condenada pelo assassinato de um policial estadual de Nova Jersey.

Há alguns fatos incontestáveis sobre o caso. Em 2 de maio, 1973, Assata Shakur, uma Pantera Negra, estava dirigindo pela Rodovia Estadual de Nova Jersey com dois acompanhantes, Zayd Shakur e Sundiata Acoli.

Os três foram parados por causa de uma lanterna traseira quebrada. Um tiroteio começou; os motivos e como começou são incertos. Porém as conequências não. Policial Wener Forester e Zayd Shakur foram mortos.

Sundiata Acoli escapou (ele foi capturado dois dias depois). E Assata foi baleada e presa. No julgamento, três neurologistas testemunharam que o primeiro tiro estraçalhou sua clavícula e o segundo estraçalhou o nervo médio da sua mão direita. Esse testemunho provou que ela estava sentada com suas mãos pro alto quando ela foi atingida pela polícia.

Outros depoimentos provaram que nenhum vestígio de pólvora foi encontrado em nenhuma de suas mãos, nem suas digitais foram encontradas em nenhuma das armas que estavam na cena do crime. Entretanto, Shakur foi condenada por um júri todo branco e sentenciada à prisão perpétua.

Seis anos e seis meses depois do dia em que foi presa, ajudada por amigos, Shakur fugiu da Prisão Clinton de Mulheres em Nova Jersey¹. Como um estudante do ensino fundamental, eu lembro de ver cartazes por toda comunidade no Brooklyn onde eu vivia que lia: “Assata Shakur é bem-vinda aqui.” Em 1984, ela apreceu em Cuba e foi dada asílio político por Fidel Castro.

Há aqueles que acreditam que ser condenado por um crime lhe torna culpado. Porém isso impõe a suposição de que nosso sistema de justiça criminal seja infalível.

Quando Assata Shakur foi condenada pelo assassinato de Werner Foerster, não só o Partido dos Panteras Negras havia sido rotulado pelo então diretor do FBI², J. Edgar Hoover, como “a maior ameaça interna” à segurança dos Estado Unidos, como Assata já havia sido criminalizada pelas mentes do público norte-americano³.

Ela foi acusada por seis crimes diferentes, indo desde de tentativa de homicídio a roubo a banco, e mesmo com a sua absolvição ou indeferimento das acusações, para o cidadão comum, parecia que ela tinha que ser culpada por alguma coisa. E ela era. Ela era culpada por chamar por uma mudança no poder nos Estados Unidos e por justiça econômica e racial.

Incluídas numa pequena lista das muitas pessoas que fizeram este chamado e foram ou criminalizadas, aterrorizadas, mortas ou postos na lista negra4 estão Paul Robeson, Martin Luther King, Schwerner, Chaney e Goodman, Medgar Evers e Ida B. Wells.

Talvez o que seja mais insultante sobre o último ataque do governo à Assata seja que enquanto eles tentam vigorosamente sua extradição, alguns anos atrás usando a extradição como barganha para suspender o embargo, eles foram decididamente apáticos em perseguir a extradição para a Venezuela de um autodeclarado terrorista, residente da Flórida, Luis Posada Carriles. Carriles é possivelmente responsável por explodir um vôo cubano em 1976, um ato que custou a vida de 73 civis inocentes.

Para aqueles de nós que lembram o estado da união nos anos 60 e 70 ou estudaram isso, quando consideramos Assata Shakur vivendo sob asílio político em Cuba, nós acreditamos que aquela nação está exercendo sua autonomia política e de maneira alguma acolhendo uma terrorista.

Cubanos veem Assata como eu e muitos outros da minha comunidade veem: como uma mulher que foi e é perseguida por seus ideais políticos.

Quando o governo federal aumentou a recompensa pela sua cabeça nesse 2 de maio, um oficial declarou que Assata mal valia “240 quilos de dinheiro.” Para muitos de nós na comunidade Negra, ela nunca poderia ser tão diminuída. Para muitos de nós na comunidade Negra, ela foi e continua, para usar suas próprias palavras, uma “escrava fugida”, uma heroína, como Harriet Tubman.

Mos Def, ator e rapper, está atualmente estrelando em “The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy.” Este texto apareceu inicialmente em AllHipHop.com com o comentário “As opiniões expressas neste artigo não necessariamente representa as opiniões da AllHipHop.com ou de seus empregados.”

¹ Do original Clinton Women’s Prison.
² Federal Bureau of Investigation.
³ Do original American. Nos Estados Unidos, os termos ‘americano’ e ‘América’ são utilizados para falar sobre o país, mesmo que América seja todo o continente englobado pela América do Norte, Central e do Sul e americano seja quem nasceu no continente.
4 Do original blacklisted.

Tradução: foc